Movimentação em campo movimenta o placar

Quando a bola gira, a rede balança. Jogadores trocando de posições com inteligência, dando opções de passe, criando situações diferentes de arremate e construção. Isso foi um pouco do que se viu na Neo Química Arena.

Uma festa que começou antes mesmo do apito inicial, num espetáculo de luzes e a tradicional corda vocal poderosa da fiel. Atmosfera que, por ela mesma, já faria o time entrar ganhando de um a zero. E não demorou muito para que Mantuan fizesse o estádio comemorar em êxtase após o cruzamento-passe de Piton.

A volta de Fagner e João Vitor trouxe a velocidade no primeiro setor do campo, potencializando Cantillo. O colombiano finalmente fez um jogo de qualidade, com muita consciência defensiva e seus já conhecidos lançamentos e inversões precisas. É bom ver seu potencial crescendo num momento em que Maycon está fora.

E o que dizer do camisa 10? William é incomparável, diferenciado e perigoso. Participou das primeiras 3 jogadas de gol, mas antes disso, já havia se destacado por quebrar as marcações. Ele atrai sempre dois jogadores quando está com a bola e isso enriquece as possibilidades no ataque. Quando não dribla, encontra atletas em melhores condições. Flutuando com Guedes na referência, foi incisivo no campo todo, extremamente fundamental para a imposição da equipe.

Agora, não apenas pelos 2 gols da noite, é impossível não destacar Giuliano. O primeiro de todos os reforços ainda na era Sylvinho, já havia sido protagonista logo na sua chegada. Consegue ser versátil atuando na marcação pelo meio de campo, sai com qualidade nas transições ao ataque e ainda faz a presença de área nos momentos em que nosso 9 vai para a ponta. Por mais que Mantuan seja o coringa, ontem a carta na manga foi ele.

A vitória no clássico é uma parte de um estágio de crescimento. Em termos mais simples, além de tática e posicionamento dos atletas, o êxito veio da movimentação. Não tivemos uma equipe estática que esperava a bola atrás da marcação de forma burocrática. É a confiança de querer sair jogando, com tranquilidade e inteligência. Não à toa, Cássio consegue dar passes na região defensiva, eliminando o confortável chutão de tempos recentes.

Claro que ainda existe um desequilíbrio bem exacerbado nas substituições, com Roni e Xavier machucando nossas retinas em suas atuações inseguras. Com sorte, saberão aproveitar o processo claro de desenvolvimento do grupo e poderão contribuir sem comprometer.

Fato é que, como já se percebeu, o Corinthians joga pra marcar gols cedo e ter mais calma pra controlar as partidas estando na dianteira. Acertando finalizações e variando as jogadas, a coisa flui. Melhor ainda, num clássico.





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Primeiro na tabela e na cabeça dos críticos

Ganhar fora de casa, jogando futebol de Premier League ou da terceira divisão da China costuma ser um resultado a se comemorar, a menos, claro, que o clube seja o Corinthians. Quando se trata de qualquer êxito do alvinegro, todas as espécies de fatores externos serão colocados em discussão para deslegitimar os méritos do time.

Já observamos pseudo-jornalistas com os braços carregados de músculos empunhando a bandeira do “Nível Baixo do Campeonato”. Alguns preferem tremular a “Precisamos rever a regra do impedimento”. Isso sem falar nos emocionados que usam a internet paga pelos pais para acusar o atual treinador da seleção de prejudicar intencionalmente suas equipes por querer favorecer o SCCP.

De fato, a qualidade do futebol tupiniquim não é exuberante, mas não é uma exclusividade de 2022. Há tempos vibramos com um campeonato que nunca tem as maiores estrelas, com atletas promissores saindo cada vez mais cedo da base para realizar sonhos na Europa e um calendário que parece uma esquete de humor do Zorra Total.

Bastou atingirmos a liderança para que toda a espécie de argumento aparecesse, como se todos virassem paladinos da justiça futebolística. Na rodada passada, os “postulantes” ao título não tiveram o mesmo tratamento desprezível quando ocupavam posições à nossa frente.

Mas independente do trabalho preguiçoso e rasteiro da imprensa esportiva (inclusive de alguns que cobrem o clube), seguimos lutando pela continuidade de trabalhos a longo prazo. Infelizmente, o que garante tal planejamento são vitórias ininterruptas, como se não existissem outros adversários desejando ganhar.

Os mais sensatos sabem que o Corinthians é um time para 2023, independente do que se apresenta agora. Se vierem eliminações nas competições de mata-mata e eventuais oscilações no torneio nacional, é importante não cair em narrativas de terra arrasada e expulsar mais um treinador que tenta trabalhar por aqui.

Dá pra jogar mais? Claro que dá.
Mas também dava pra empatar ou perder para o Atlético-GO e ver os repórteres ouriçados perguntando o motivo da equipe não segurar o resultado. Às vezes, ganhar ainda é a melhor das possibilidades, principalmente para um grupo de jogadores que não se encontra na harmonia ideal – diferente de outros clubes que jogam juntos há tempos e, consequentemente, empilharam conquistas.

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Não era mudança que vocês queriam?

Futebol brasileiro não é Granero, mas muita gente vive pedindo mudanças. E quando ela realmente chegou – em versão portuguesa – já apareceram os emocionados inconformados com os processos dessa transformação. Acostumados a apontar seus microfones sem qualquer compromisso com a coerência, alguns jornalistas esportivos finalmente sentem que a ausência de conhecimento dentro das quatro linhas começa a pesar contra.
VP fala o que muitos treinadores certamente gostariam de falar e faz o que muitos talvez gostassem de fazer. Existe um respaldo tardio por parte das diretorias de clubes nacionais porém, mesmo com tal atraso, apontamentos que antes eram sumariamente ignorados viram pautas relevantes.

Talvez jogadores, jornalistas e torcedores não estejam acostumados com quem não massageia egos. No mundo prático, é 8 ou 80. Ou você merece jogar ou você fica confortável no banco de reservas, ou na cadeira da redação ou na arquibancada.

Contra o São Paulo, em tempos distintos, a mudança estava lá. Variação de esquemas, improvisações por necessidade, cobrança por desempenho, destemperamento comum em clássicos, jovens mesclados com experientes. Não é isso que se cobrava por tantos que passaram por aqui?

Cansamos de ler especialistas dizendo que o importante é colocar os melhores juntos e o técnico que se vire pra resolver, mesmo que não estejam em condições físicas aceitáveis, mesmo que não consigam cumprir funções táticas, mesmo que consigam manter uma sequência razoável de qualidade.
E não é assim. Não dá pra ser assim.

Quando as coisas não andam como sempre foram, o pessoal começa a espumar. Quer que ganhe todos os clássicos, quer saber a razão de Róger Guedes não entrar, quer saber qual a marca do tanque de guerra que levou o técnico em segurança para o aeroporto no jogo em que perdeu.
As pessoas não se sentem confortáveis quando alguém não só aponta a ferida, mas pressiona com força pra ver se o grito encobre os comentários dispensáveis.

Ainda bem que os resultados continuam positivos para o lado de Vitor Pereira. Pois todos estão desesperadamente querendo derrotas e deslizes para fazer com que tudo volte ao normal. Mesmo na liderança, já temos ‘profissionais’ profetizando sobre a manutenção do time no topo, torcedores descontentes com o 9 no banco… enfim. São teorias e teorias que buscam, incessantemente, implodir aquilo que sempre se pediu: a mudança.

2022 é um ano de transição. Sinceramente, esperava que o desempenho de agora viesse um pouco mais tarde pois assim a cobrança seria menos intensa. De qualquer forma, com tantos êxitos recentes e uma padronização em andamento, é preciso manter a paciência pra lidar com tantas forças contrárias ao renascimento do maior das Américas.

Claro, existe muito a se fazer. Mas a mudança precisa ir até o endereço final. Seja ela um título de Libertadores, de Copa do Brasil, de Brasileiro ou simplesmente uma pavimentação de caminho para um 2023 consistente.

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Raça e alternativas: é bom ter

Se ventos costumam levar cantos falsos de outras torcidas para lugares inaudíveis, por aqui, eles tem sido finalmente generosos. Afinal, depois de colecionarmos sequências pouco confiáveis, ares mais otimistas e de resultado voltaram a balançar os cabelos do mosqueteiro incansável que trava batalhas intermináveis para reconquistar seu lugar de direito.

Rodando o elenco sem precisar rodar a baiana, VP consegue imprimir uma constância de performance ousada, imputando jogo a jogo essa cultura de titularidades inexistentes. Onde todos jogam, todos ganham. Felizmente, isso vale também para as partidas. Num cenário nacional engessado de padrões, acostumado com times imutáveis e previsíveis, a postura manda recados diretos ao calendário obtuso juntamente à eterna omissão do jornalismo esportivo ao tema. O produto futebol como entretenimento vem decaindo vertiginosamente e esta bandeira precisava ser levantada antes que fosse tarde demais – quando na realidade, passamos do tarde demais há algum tempo.

Ainda que por necessidade, os comandados da noite de quarta-feira souberam aproveitar essa filosofia para sair da Neo Quimica Arena com três pontos e o pix da CBF. Imposição física e tática desde os primeiros minutos contra o adversário sabidamente inferior mas, diante de insucessos recentes, era mais do que importante consolidar o crescimento com uma boa vitória e apresentação. O treinador precisou lançar mão de Fábio Santos como terceiro zagueiro, largando Piton para avançar na ala juntamente com Gustavo Silva pelo lado direito.

A estratégia culminou num time rápido e perigoso que foi contemplado com o emocionante gol de Jr. Moraes após uma bicicleta errada de Giuliano. Ver o atacante subir em direção à torcida, claramente extasiado, foi um registro de trabalho feito. Era a sensação de um grupo que trabalha junto e não apenas quer vencer, mas não aceita outra possibilidade.

Inspirado na mesma motivação, Giuliano teve uma performance mais solta no meio e conseguiu anotar mais um gol pelo alvinegro, coroando sua entrega e comprometimento desde o ano passado, quando era apenas o primeiro reforço. Este placar já permitia ao técnico português fazer alterações para prevenir desgastes físicos e até mesmo Cássio saiu do jogo – no caso, por um incômodo acusado pelo próprio jogador. A impressão que se tem é que o goleiro campeão de 2012 também sentiu a resolução do certame propiciando mais minutos para o reserva da noite, Ivan.

A classificação veio com segurança, sem o sofrimento que tantos romantizam. Com a ideia de jogo que está sendo apresentada, o objetivo certamente é depender mais da qualidade do que da sorte, pois torcida e raça são atributos naturalmente implícitos em nosso DNA. VP entendeu rápido o que é representar o maior time das Américas e coloca isso de forma clara aos que vestem o manto.

Quando podemos ver tantas variações e aspectos técnicos em campo, falta tempo para polêmicas e insinuações. Isso faz bem não só para o Corinthians mas para o futebol que se pratica aqui. Com mais análises de desempenho e menos invenção de bastidor, o caminho se torna cada vez mais vertical na direção das glórias das quais somos feitos.

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Empate é ponto positivo

Empatar fora de casa em competições sul-americanas sempre soou como um resultado mais do que positivo para equipes brasileiras. Por mais que o desempenho recente dos clubes tupiniquins seja avassalador, quando falamos de Corinthians, a coisa nem sempre é tão simples.
Por isso, o 0x0 contra o Cali precisa ser analisado além do próprio resultado (como toda partida desse esporte, convenhamos). Foi um embate no qual tivemos grandes chances de matar o jogo e a vontade de sermos líderes do grupo sem maiores preocupações em La Bombonera.

Com VP viajando no dia do confronto e rodando o elenco como de costume, foi animador acompanhar a evolução gritante do centroavante Jô, flertando com seus melhores dias no alvinegro, segurando a bola com qualidade no último terço do campo, dando passes decisivos e ganhando jogadas pelo alto com toda a elegância de um filho de Itaquera. Se não fosse pelo penalty defendido por Cássio, seria tranquilamente eleito o melhor atleta da noite.

O camisa 12, por sua vez, acompanha a evolução do nosso 77, com reflexos revigorados e grande postura nos momentos decisivos. Se saísse um pouquinho mais do gol nos escanteios e se posicionasse próximo aos zagueiros para antecipar lançamentos, seria ainda mais efetivo. De qualquer forma, é bom ver a segurança voltando aos poucos.

Fábio Santos teve duas chances de nos colocar em vantagem. A penalidade batida por cima foi atípica e na sequência, após um corta-luz pornográfico de Jr Moraes (que sofreu a falta dentro da área para a cobrança do camisa 26), o chute com a perna direita passou ao lado da trave e decretou a igualdade.

Mantuan também teve oportunidades e precisa de um pouco mais de calma para definir suas ações. O jovem certamente vai evoluir nesse sentido, contribuindo positivamente para o elenco nas competições que disputamos. Já Gustavo Silva foi um pouco melhor que sua exibição na Copa do Brasil, mas ainda distante do jogador que carregou o time todo nas costas antes dos reforços.

A dupla de zaga teve uma atuação preocupante, com botes fora do tempo e uma insegurança acima da comum. Claro, são ‘miúdos’, como VP gosta de dizer, e certamente aprenderão um bocado sendo testados em torneios assim, mas numa oitava de final da vida, todo cuidado é pouco.

Voltamos da Colômbia num cenário relativamente tranquilo e a filosofia do treinador sendo adaptada com base na condição dos jogadores que temos à disposição. William segue mostrando que está anos-luz de distância do esporte praticado nas Américas e precisa ser preservado o máximo possível, sendo uma arma diferenciada em nosso arsenal de opções. Sem Paulinho, Giuliano jogou de forma tímida mas pode recuperar seu desempenho do ano passado. O mesmo vale para Cantillo que também merece mais minutos nesse ecossistema de 2022.

3 pontos seriam mais justos. Mas 1 valeu pelo que se foi criado.
No fim, acabamos ganhando.

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Desapagou

Para a tristeza daquelas pessoas pobres de espírito que fazem birra por superstição, a exibição do alvinegro diante do Boca derrubou um tijolo importante de uma muralha alta da hipocrisia. Enquanto vozes antes do apito inicial usavam suas respirações para dizerem que deveriam estrear o uniforme antes, que o time nunca havia vencido em ações assim, que o símbolo do time ficou apagado, que o corte de cabelo do Guedes está ultrapassado, a equipe pegou os três gols tomados anteriormente pelo rival e usou de combustível pra jogar uma partida de Libertadores com toda a pompa e circunstância que a competição pede. E que nossa história exige.

Há tempos é sabido que o Corinthians joga pra resolver tudo nos primeiros minutos. E é assim desde a época de Tiago Nunes. Hipócritas podem querem desvirtuar isso, mas muito de nossos fracassos passados foram puramente por chances desperdiçadas no início dos certames. Dessa vez, com a intensidade aumentada e a pontaria ajustada, o placar foi aberto cedo com a dupla Fagner-Maycon, numa jogada efetivamente construída.

Se Adson treinasse um pouco mais de fundamentos e imprimisse mais força em seus chutes, poderíamos ter saído com 2×0 sem dificuldades. Ainda assim, a etapa inicial foi controlada, mesmo que os equívocos do árbitro em termos de aplicação de regra quase tentassem prejudicar o que conquistamos.

A segunda etapa apresentou uma cadência maior de nossa parte, usando os contra-ataques para matar o jogo e isso finalmente aconteceu com o próprio Maycon iniciando a jogada, distribuindo para o incrível William que, por sua vez, deixou o lado de campo e cortou para o meio, abrindo a possibilidade de Róger Guedes (que havia substituído Jô) usar sua melhor qualidade de lado de campo, fazendo o facão para a linha de fundo e encontrando o último reforço corinthiano dentro da área pra tocar pro gol e decretar a liderança do time de Parque São Jorge no grupo.

É evidente que o caminho ainda é longo mas vitórias sempre ajudam a acelerar os processos. Muitas interrogações ainda pairam no ar, como por exemplo a falta de segurança de Du Queiroz como primeiro volante. Por outro lado, é importante destacar a partida de Fábio Santos e Jô. No caso do lateral-esquerdo, a presença de uma zaga mais veloz segue ajudando seu desempenho. Fez um jogo muito seguro, lembrando suas épocas de dez anos atrás, justamente o que a nova camisa comemorava.
O 77, por sua vez, melhorou a condição física e foi muito eficaz em ganhar bolas no ataque.

Seria interessante ver Giuliano ter mais chances que Paulinho no decorrer do ano, bem como a possibilidade de William e Guedes jogarem juntos, como o camisa 10 um pouco mais para o meio. De resto, vale a comemoração imediata de uma equipe que vinha com pressão crescente desde o empate para o Portuguesa carioca.

Foi o fim do apagão com a maior torcida do país pulsando e sendo arrepiante.

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Ganhamos de um time colombiano e perdemos o maior deles

Noites de Libertadores nunca são comuns para o Corinthians. Mesmo após a conquista histórica de 2012, as partidas dessa competição sempre costumam trazer elementos de dramaticidade, independente da qualidade da equipe que se enfrente.
De certa forma, na maior parte do tempo tivemos a imposição que buscávamos, criando chances com os atletas procurando movimentações para abrir o jogo. A entrada de Maycon como primeiro volante trouxe uma elegância ao conjunto, melhorando bastante a saída de bola e deixando William e Renato Augusto mais confortáveis para se colocarem como opções de passe. O ex-Chelsea segue com muita intensidade, mostrando uma real evolução física que contribui demais para nossas ações no setor de lado de campo. Um dos melhores do certame, mais uma vez.

Também pudemos acompanhar outra boa apresentação de Raul Gustavo, muito rápido e eficiente na defesa e sempre bastante perigoso nas subidas ao ataque. Tem uma bola aérea muito forte, recompõe com velocidade e possui qualidade de passe. Uma escolha que favoreceu Fábio Santos, pois traz uma segurança em termos de mobilidade nas subidas do lateral. Do outro lado, a maior cadência do Gil é compensada pelo dinamismo do Fagner, ou seja, boas escolhas do treinador nesse balanço de características.

Apesar de discreto, Jô cumpriu um bom papel segurando dois zagueiros o tempo todo, deixando o jogo fluir mais pelas laterais. Uma estratégia que seria ainda mais eficiente de Paulinho conseguisse as mesmas infiltrações que obteve no confronto com o Botafogo. Por outro lado, Mantuan segue aproveitando suas chances e mostrando ser uma arma muito valiosa nesse misto de experiência e juventude.

Em termos gerais, a equipe jogou o tempo todo pra vencer e foi premiada com um pouco de sorte – depois de tantos episódios de azar nos últimos anos. A vitória se fez perfeitamente merecida e seria ainda mais comemorada se não tivéssemos perdido um dos maiores ídolos de nossa história.
A notícia da morte de Rincón entristece qualquer tipo de comemoração por se tratar de um atleta simplesmente extraordinário. Um capitão que honrou nossa camisa e liderou com absoluta técnica um dos meio-campos mais exuberantes de nossa história.

Ele não levantou apenas a taça do primeiro mundial mas também levantou nosso nome ao mundo. Combinava entrega, talento e raça como ninguém, um símbolo de tudo aquilo que remete ao Corinthians. Sua forma de jogar mudou completamente o conceito de volante. E sua forma de vestir nossa camisa mostrou que nosso clube não tem nacionalidade. Um colombiano ímpar viveu nossas cores com a intensidade e respeito que muitos daqui não conseguem entender.

Ontem fizemos 3 pontos, mas Rincón fez história. E nos fez chorar.

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No Rio, todos rimos aliviados

O campeonato mais disputado do planeta pede regularidade em meio à bagunça de datas espremidas e viagens continentais entre uma rodada e outra. Isso sem falar do jornalismo esportivo contestável que trata o esporte como pauta cômica – transitando entre o público prazer de criar crises e mostrar números de treinadores demitidos.
É nesse cenário imutável há décadas que o alvinegro entrou no Nilton Santos para somar os primeiros 3 pontos de uma caminhada contra tudo isso que já foi citado, além é claro, dos outros 19 times.

Entre crucificação e endeusamentos, foi positivo enxergar a apresentação do time na primeira etapa. Como já se sabe, o Corinthians possui um elenco que joga os primeiros 15 e 20 minutos para transformar em gols toda a intensidade de entrega nesse período. Quando se consegue, tudo fica consequentemente menos complicado. Na Bolívia não tivemos esse sucesso e, quanto mais o tempo se arrasta, mais desafiador fica a necessidade de reverter placares.

Até o contestadíssimo João Pedro fez um jogo consistente. Maycon já começou a se encaixar no meio e William, sem muito esforço, apresentou sua qualidade de Premier League. Paulinho contornou seus recentes desempenhos pouco inspirados para fazer o que sempre se espera dele. Piton conseguiu explorar suas capacidades ofensivas da melhor maneira. E não podemos esquecer de Mantuan, que sempre esteve presente mesmo com outros treinadores e se mostrado muito efetivo nesse grupo experiente.

A mescla vai se mostrar eficiente no longo prazo, pois ficou muito evidente a impossibilidade de se repetir escalações – algo que pode ser considerado positivo quando se observa efetivamente que todo o grupo precisará jogar.

Diante de um rival que costumava causar muitos problemas ao Corinthians quando joga em casa, o resultado teve um impacto extremamente valioso em todo o recente contexto que observamos. Resta saber se conseguiremos conseguir vencer não apenas os adversários, mas também aqueles que cobrem o time e se sentem porta-vozes de 40 milhões de torcedores.

Isso é mais difícil que vencer clássicos e altitudes.

Que o Corinthians consiga.

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Pior que a altitude é a queda livre

Não se impressione se a Panini procurar o Corinthians para lançar um álbum de figurinhas só com técnicos. O clube que é diferente de todos têm se igualado perigosamente nesse tipo de atitude, podendo tranquilamente despertar esse tipo de ação. Fica aí uma ideia para a parte menos emocionada da torcida que ainda não se deixou levar pelas análises confortáveis de setoristas sem qualquer argumento palpável, mas com muito tempo livre – e espaço.

Fato é que, com pouco mais de um mês, já é possível ouvir clamores encontrando o culpado no banco. Sequer chegou de Portugal e já sente o que os três últimos brasileiros sentiram com a prancheta nas mãos e a difícil incumbência de treinar o maior time do mundo com medalhões birrentos e pouco pulso por parte da diretoria.

Já nem se sabe mais o que se pede. Antes, era para o time ser moderno e veloz, ser mais técnico e vertical do que raça e entrega. Depois, voltou-se atrás, tentando resgatar essa essência corinthiana (que não pode ser reduzida apenas ao suor e sangue, pois em nossa história sempre soubemos aliar suor com eficiência técnica) e agora, na contemporaneidade do futebol, miramos para o horizonte lusitano que fora anteriormente desbravado por um Jesus com mais sorte do que capacidade.

Estamos em 2022 e Vitor Pereira entra na competição que mais nos atinge emocionalmente contando com atletas de 2012. Ele tenta mexer as peças mas as peças não se mexem, ou se mexem com uma velocidade questionável. Ok, estreias nunca são simples, mas a completa ausência de ímpeto contra os preparados Always Ready é brutalmente desanimadora. Como também já foi em várias oportunidades sob outros comandos.

Tiago Nunes não está mais lá, Mancini se foi, Sylvinho teve o nome ineditamente alvejado por torcedores que sempre apoiavam o tempo todo e também não está mais do lado do campo. Esse lugar de bode expiatório vai ser ocupado pelo português? Quando é que os setoristas e torcedores vão mirar seus olhos para aqueles que realmente possuem o poder de ganhar ou perder?

Quando precisamos falar de raça em pleno 2022 é porque algo não deu certo. Raça é, ou deveria ser, item obrigatório pra se praticar futebol no alvinegro. Antes de meião, caneleira, calção e camisa, vem a vestimenta da raça. Porém, tecnicamente já passamos por isso. Não temos e nem precisamos mais ter esse discurso diante do que teoricamente passamos a mirar. Não vivemos mais de Corinthians apenas para servir de ombro nos infortúnios internacionais. Somos a potência que traz resultados mais do que de placar, mas sociais, de cidadania. E pra isso ser aumentado, é urgente que tal grandiosidade seja percebida por quem recebe do clube uma das folhas mais caras do país.

Quem treina deve ser cobrado. Mas quem joga, deve ser triplamente cobrado. Pois a história que se escreve com nosso manto também se enterra quando não se sabe a hora de parar.

E muitos não sabem.

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Outras coisas foram enterradas na Neo Química Arena

A atmosfera fúnebre criada em torno do rival sulista foi a tônica absoluta para o embate da partida de ontem. Fora das quatro linhas, 2007 parecia pulsar com uma narrativa completamente compreensível de vingança ao revés corinthiano que não necessariamente foi imposto pelo adversário em questão – afinal, o resultado de um rebaixamentos se dá em 38 rodadas – mas suscitou a mobilização para a justiça em colocar os dedos nos ombros do tricolor e conduzí-lo para a desconfortável Série B.

Dentro de campo, diferente dos jogos anteriores em que o alvinegro se impôs seguindo a sinfonia dos cantos da torcida, o cenário se desenhou mais perigoso pela postura do Grêmio. Tal atitude foi motivada pelo desespero da queda ou pela mente discutível de Mancini? Enquanto muitos se questionavam, Fábio Santos, Gil e Cássio protagonizavam uma esquete dos Trapalhões para consagrar Diego Souza.

É incrível imaginar que 2012 ainda seja capaz de carregar os personagens com a titularidade, não é mesmo? Mais um deslize que quase custa a primeira derrota dentro de casa após a sequência brutal de êxitos com o retorno do torcedor fiel.

Felizmente, o 8 clássico, em dia de homenagem ao gênio Sócrates, fez as cordas vocais dos quase 45 mil presentes explodirem. Renato Augusto é o termômetro para um 2022 que marca a transição de um Corinthians: o time da raça que também pode transpirar técnica e genialidade.

Tanto o rival do Internacional quanto o ano do rebaixamento e o próprio 2021 precisam ficar embaixo da terra. O processo doloroso de atravessar as tormentas pós-treinadores parece sinalizar seu episódio final. Por mais que muitos clamem por outra transição, é muito importante observar que conseguimos chegar ao fim de um novo ciclo. Um ciclo que não foi terminado por Jair Ventura, por Tiago Nunes e nem por Vagner Mancini. Sempre, durante as tempestades, os comandantes eram jogados do navio enquanto a tripulação seguia remando (e muitas vezes remando errado ou fingindo que remavam).

Agora, com todos na mesma direção, é possível realmente se cobrar algo mais consistente. Uma equipe com atletas chegando ao seu preparo físico ideal, com mais entrosamento e a chance de começar uma temporada com algum lastro anterior. Não é mais do zero. Isso é mais do que fundamental.
Quando se tem tempo, se tem também menos desculpas. Quando se tem tempo, se tem também mais questionamentos relevantes por parte de quem cobre o clube e principalmente de quem torce.

2022 é o ano da ressurreição.

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